O MÚSCULO NÃO QUEIMA POR CAUSA DO ÁCIDO LÁTICO COMO MUITA GENTE AINDA ACREDITA
Durante décadas, uma das explicações mais repetidas dentro das academias foi a de que a sensação de queimação muscular durante o exercício acontecia por causa do famoso ácido lático. A teoria ficou tão popular que atravessou gerações de praticantes e ainda hoje aparece em vídeos, conversas e conteúdos sobre treinamento físico. 
O problema é que a ciência do exercício evoluiu bastante nos últimos anos.
E o que os pesquisadores descobriram foi que a história é muito mais complexa do que simplesmente culpar o lactato pela ardência muscular.
Quando realizamos exercícios intensos, principalmente séries longas ou atividades de alta demanda metabólica, o organismo acelera a produção de energia para tentar sustentar o esforço.
Nesse processo, diversas reações químicas acontecem dentro das células musculares.
É justamente aí que surgem alterações importantes no ambiente interno do músculo. 
Durante muito tempo, acreditou-se que o lactato era o principal responsável pela sensação de queimação.
Hoje sabemos que ele não é o grande vilão da história.
Na verdade, o lactato é uma molécula que pode até desempenhar funções importantes no metabolismo energético.
O principal fator associado à sensação de ardência está relacionado ao aumento da concentração de íons hidrogênio durante exercícios intensos.
Esses íons contribuem para tornar o ambiente muscular mais ácido temporariamente.
Quando isso acontece, diversos processos celulares começam a funcionar de maneira menos eficiente.
A contração muscular se torna mais difícil, a produção de força diminui e a sensação de desconforto aumenta progressivamente.
É justamente essa combinação que muitos praticantes reconhecem como a famosa “queimação muscular”.
Outro detalhe interessante é que o corpo possui mecanismos para lidar com essa acidificação.
Sistemas tampão presentes no organismo ajudam a controlar alterações de pH e restaurar o equilíbrio após o esforço.
Por isso, a sensação de ardência não permanece para sempre.
Ela tende a diminuir conforme a atividade termina e o organismo recupera suas condições normais. 
Outro ponto pouco falado é que o lactato não é necessariamente um inimigo.
Durante muitos anos ele foi tratado quase como um resíduo tóxico do exercício.
Hoje sabemos que ele pode ser reutilizado pelo organismo como fonte energética em diferentes tecidos.
Ou seja, aquilo que antes era visto apenas como um problema também possui funções importantes dentro da fisiologia humana.
Mas existe um ajuste importante para evitar outro mito comum.
A queimação sentida durante a série não deve ser confundida com a dor muscular que aparece um ou dois dias depois do treino.
São fenômenos diferentes.
A sensação de ardência ocorre durante o exercício e está ligada principalmente ao ambiente químico momentâneo do músculo.
Já a dor muscular tardia envolve processos de recuperação, adaptação e microdanos relacionados ao treinamento.
Outro detalhe curioso é que muitas pessoas associam queimação diretamente à eficácia do exercício.
Mas sentir o músculo arder não é garantia automática de hipertrofia.
Embora o estresse metabólico seja um dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento muscular, crescimento depende também de carga, volume, recuperação, alimentação e consistência.
Além disso, diferentes exercícios geram sensações distintas.
Alguns produzem forte ardência mesmo com cargas moderadas, enquanto outros exigem grandes pesos e pouca sensação de queimação.
Isso acontece porque cada movimento recruta fibras musculares e sistemas energéticos de maneira diferente.
No fim, talvez uma das maiores lições da ciência do exercício seja perceber que muitas explicações simples acabam escondendo mecanismos muito mais interessantes.
O famoso ácido lático virou um dos maiores mitos da musculação justamente porque parecia oferecer uma resposta fácil para um fenômeno complexo.
Mas o corpo humano raramente funciona de maneira tão simples.
E talvez seja exatamente isso que torna a fisiologia do exercício tão fascinante até hoje.
Fonte: American College of Sports Medicine (ACSM), Journal of Applied Physiology e National Strength and Conditioning Association (NSCA)
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