sábado, 7 de fevereiro de 2026

QUANDO O ACESSÓRIO TREINA NO SEU LUGAR

O “VÍCIO” DA LUVA E DO CINTO
Em muitas academias, acessórios como luva, cinto, straps e munhequeiras se tornam parte permanente do treino de quem está iniciando. O curioso é que esses acessórios foram criados para situações específicas, e não para uso contínuo. O problema aparece quando o acessório começa a “treinar no lugar do corpo”. Isso acontece porque a função fisiológica que deveria ser exercida pela musculatura estabilizadora é terceirizada ao equipamento.
Começando pela luva: ela reduz o atrito e a dor na pegada, mas também diminui a propriocepção. A propriocepção é o sistema de detecção de posição e pressão que permite ao corpo ajustar força e orientação sem precisar olhar para as mãos. Quando uma pessoa usa luva sempre, o cérebro recebe menos informação tátil e desenvolve menos força de preensão. A força de pegada é considerada um biomarcador de envelhecimento saudável e risco de mortalidade em diversos estudos populacionais. Quando o acessório substitui o estímulo, o corpo perde capacidade.
O cinto lombar é outro exemplo. Ele aumenta a pressão intra-abdominal, o que ajuda a estabilizar a coluna durante cargas intensas. Porém, quando o cinto é usado para cargas leves ou exercícios básicos, a musculatura profunda do abdômen e os eretores da coluna deixam de ser solicitados adequadamente. Isso reduz o desenvolvimento de estabilidade espontânea. Como consequência, a pessoa se sente “mais fraca” quando treina sem o acessório, porque o corpo acostumou a terceirizar a função.
Os straps, usados para melhorar a pegada em puxadas e levantamentos, também possuem contexto específico. Eles foram criados para situações em que o volume de treino para costas é limitado pela força da pegada e não pela força da dorsal ou do trapézio. Em atletas avançados, isso faz sentido. Em iniciantes, retira a oportunidade de desenvolver antebraço, pegada e músculos do carpo e antebraço que são fundamentais para atividades da vida diária.
O ponto central é que acessórios não são inimigos. São ferramentas. O problema não está no acessório, e sim no uso indiscriminado. O critério técnico é: quanto mais alto o nível, menor o uso constante e mais criterioso o uso esporádico.
A evidência científica apoia essa linha. Associações internacionais de força e condicionamento físico descrevem que acessórios devem ser aplicados de acordo com carga, volume e complexidade, e não apenas por conforto. Em ambientes reais, atletas profissionais em modalidades de força raramente usam acessórios durante aquecimento, mobilidade ou séries técnicas. O corpo só evolui quando recebe o estímulo que a função exige.
No fim das contas, o objetivo do treino é desenvolver autonomia física. O acessório deve ampliar capacidade, não substituir o corpo.
Fontes:
National Strength and Conditioning Association; Journal of Strength and Conditioning Research; Journal of Sports Sciences; American College of Sports Medicine

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